quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

Mestre Vavá - o comandante da esquadra do Fandango do Pontal da Barra

 


Mestre Vavá é uma das grandes referências da cultura popular de Alagoas, guardião e protagonista do Fandango do Pontal da Barra, manifestação tradicional que atravessa gerações e mantém viva a identidade cultural daquela comunidade histórica de Maceió. Seu nome se confunde com a própria trajetória do fandango local, marcado pela força da oralidade, da música, da dança e do espírito coletivo.

À frente do grupo, Mestre Vavá, declarado Patrimônio Vivo de Alagoas, dedica sua vida à preservação de saberes ancestrais, transmitidos de forma prática e afetiva, sobretudo aos mais jovens. No ritmo dos tambores, no canto marcado pela tradição e nos passos que narram histórias do povo do litoral, ele reafirma a importância do fandango como expressão legítima da cultura popular alagoana.

Mais do que um brincante, Mestre Vavá é educador cultural. Seu trabalho ultrapassa o palco e o terreiro, alcançando escolas, projetos comunitários e eventos culturais, onde compartilha conhecimentos, valores e a memória viva do Pontal da Barra. Sua atuação fortalece vínculos comunitários e contribui para que a tradição não se perca diante das transformações do tempo.

Reconhecer Mestre Vavá é reconhecer a resistência cultural de Alagoas. Seu legado simboliza a luta pela valorização dos mestres e mestras da cultura popular, que, mesmo diante das dificuldades, seguem mantendo acesa a chama das manifestações tradicionais. O Fandango do Pontal da Barra, sob sua condução, permanece vivo, pulsante e essencial para a história cultural do estado.

Mestra Marlene do Guerreiro São Pedro Alagoano



Mestra Marlene, nascida Maria Helena, é uma das grandes guardiãs da cultura popular de Alagoas, referência viva do Guerreiro, manifestação tradicional que mistura música, dança, teatro popular e devoção religiosa. À frente do Guerreiro São Pedro Alagoano, Mestra Marlene construiu uma trajetória marcada pela resistência, pela fé e pelo compromisso com a preservação dos saberes transmitidos de geração em geração.

Sua atuação vai muito além da condução do grupo. Mestra Marlene é educadora popular, liderança comunitária e símbolo de força feminina dentro de uma manifestação historicamente desafiadora. Com sensibilidade e firmeza, ela mantém vivos os cânticos, as coreografias, os figurinos ricamente ornamentados e o sentido simbólico do Guerreiro, garantindo que cada apresentação seja também um ato de memória e identidade cultural.


O Guerreiro São Pedro Alagoano, criado pelo saudoso mestre Juvenal Domingos, sob sua liderança, tornou-se um espaço de acolhimento e aprendizado, onde crianças, jovens e adultos têm contato direto com a cultura popular e com valores como respeito, coletividade e pertencimento. Mestra Marlene compreende o folguedo como instrumento de formação humana e social, capaz de fortalecer laços comunitários e despertar o orgulho de ser alagoano.


Em um contexto de constantes desafios para as culturas tradicionais, a trajetória de Mestra Marlene, uma das mais queridas mestras do folclore de Alagoas, representa resistência e esperança. Seu trabalho reafirma a importância de reconhecer, valorizar e apoiar as mestras e mestres da cultura popular, verdadeiros patrimônios vivos. Ao manter o Guerreiro pulsando nos terreiros, praças e palcos de Alagoas, Mestra Marlene segue escrevendo uma história de amor, luta e dedicação à cultura do povo.

Mestra Edleusa e o Grupo da Mocidade

 


Mestra Edleusa é uma das grandes guardiãs da cultura popular de Maceió, com trajetória profundamente ligada ao bairro de Guaxuma e às manifestações tradicionais que mantêm viva a memória, a identidade e o sentimento de pertencimento da comunidade. Reconhecida por sua força, sensibilidade e compromisso com a cultura de base comunitária, Mestra Edleusa construiu ao longo dos anos um trabalho pautado na resistência cultural, na transmissão de saberes e na valorização das expressões populares como instrumento de educação, cidadania e inclusão social.

Em Guaxuma, sua atuação vai muito além do fazer artístico. Mestra Edleusa é referência afetiva e cultural, mobilizando jovens, adultos e idosos em torno das tradições carnavalescas e populares, estimulando o convívio comunitário e fortalecendo os laços sociais. Seu trabalho dialoga diretamente com a história oral, com a alegria do povo e com a preservação de símbolos que atravessam gerações, mantendo viva a essência do brincar, do festejar e do ocupar os espaços públicos com cultura.



Nesse contexto, destaca-se sua dedicação ao Grupo da Mocidade + Boneca Vitalina, uma das mais emblemáticas expressões do carnaval popular de Maceió. A Boneca Vitalina, que comemora 70 anos neste carnaval de 2026, símbolo de alegria, irreverência e tradição, representa não apenas o espírito carnavalesco, mas também a resistência cultural de comunidades que fazem do carnaval um espaço de encontro, memória e celebração coletiva. O grupo, sob a liderança e inspiração de Mestra Edleusa, tornou-se um verdadeiro patrimônio afetivo da cidade.

O Grupo da Mocidade tem papel fundamental na democratização do acesso à cultura, levando não só o carnaval mas também a Pastoril para além dos circuitos tradicionais e promovendo a participação ativa da comunidade. Por meio de cortejos, ensaios, oficinas e apresentações, o grupo contribui para a formação cultural de novas gerações, garantindo a continuidade dessa manifestação popular tão significativa para a identidade maceioense.

Assim, Mestra Edleusa e o Grupo da Mocidade e da Boneca Vitalina representam a força da cultura popular alagoana em sua forma mais genuína: feita pelo povo, para o povo e com o povo. Seu legado reafirma que preservar a cultura é preservar histórias, afetos e modos de existir, mantendo viva a alma cultural de Guaxuma e de toda Maceió.

Mestra Marilene: a força feminina que ilumina o Guerreiro Raio de Sol

 

A Mestra Marilene é uma das grandes referências vivas do Guerreiro alagoano, manifestação popular que mistura música, dança, teatralidade e devoção, profundamente enraizada na identidade cultural do estado. À frente do Guerreiro Raio de Sol, o caçula da Asfopal, com cerca de cinco anos de criado, ela representa a resistência, a sensibilidade e a força feminina na condução de um folguedo historicamente marcado pelo saber dos mestres e mestras da tradição oral.

Com dedicação incansável, Mestra Marilene mantém viva a chama do Guerreiro em sua comunidade, transmitindo conhecimentos que vão desde os cânticos e coreografias até os significados simbólicos das indumentárias, dos personagens e dos enredos. Sua atuação ultrapassa o espetáculo: é também um trabalho educativo, social e afetivo, que fortalece vínculos comunitários e desperta o interesse das novas gerações pela cultura popular.


O Guerreiro Raio de Sol, sob sua liderança, destaca-se pela alegria, pelo colorido e pela organização, levando ao público apresentações marcadas pela fé, pela criatividade e pelo respeito às raízes do folguedo. Cada saída do grupo é também um ato de afirmação cultural, reafirmando a importância do Guerreiro como patrimônio imaterial e expressão legítima do povo alagoano.

Mestra Marilene simboliza a mulher que conduz, ensina e preserva. Sua trajetória é exemplo de resistência cultural em um cenário de desafios, pouca visibilidade e escassez de políticas públicas contínuas. Ainda assim, ela segue firme, mantendo o Guerreiro Raio de Sol ativo, pulsante e iluminando caminhos para que essa tradição siga viva no presente e no futuro.

Valorizar Mestra Marilene é reconhecer a importância dos mestres e mestras da cultura popular como guardiões da memória, da identidade e da diversidade cultural de Alagoas.

Chapéu do Guerreiro: símbolo maior da identidade cultural alagoana

 


No universo das manifestações populares de Alagoas, poucos elementos são tão emblemáticos quanto o chapéu do Guerreiro. Alto, colorido, repleto de espelhos, fitas e ornamentos, ele não é apenas um adereço cênico, mas um verdadeiro símbolo da identidade cultural do estado. Presente no folguedo Guerreiro, manifestação típica do ciclo natalino alagoano, o chapéu concentra séculos de história e revela o encontro entre diferentes matrizes culturais que formam o povo brasileiro.

A origem do chapéu do Guerreiro remonta às tradições ibéricas trazidas pelos portugueses, especialmente aos autos natalinos, festas de reis e cavalhadas. O formato imponente e o uso de elementos como coroas, estrelas e espadas fazem referência à realeza cristã e às narrativas simbólicas de batalhas entre o bem e o mal, comuns nos festejos medievais europeus. Essas referências foram ressignificadas no Brasil, ganhando novos sentidos no contexto popular nordestino.

A influência africana é perceptível no excesso visual e no caráter simbólico dos ornamentos. Espelhos, miçangas e fitas coloridas cumprem funções que vão além da estética: representam proteção espiritual, força e vitalidade. Para muitos brincantes, o brilho do chapéu não serve apenas para chamar a atenção do público, mas também para afastar energias negativas, reafirmando a dimensão sagrada presente no folguedo.

Já a matriz indígena se manifesta no uso de penas, flores e na composição circular do chapéu, que remete a cocares e adereços cerimoniais. Essa influência reforça a ligação com a natureza e com a coletividade, aspectos fundamentais das culturas originárias e também das manifestações populares que se mantêm vivas nas comunidades.

Com o passar do tempo, o chapéu do Guerreiro ultrapassou a função de simples indumentária e se consolidou como obra de arte popular. Cada grupo imprime sua identidade na confecção, muitas vezes feita de forma artesanal, transmitindo técnicas e saberes de geração em geração. Em Alagoas, o chapéu do Guerreiro é, hoje, um patrimônio simbólico que expressa resistência cultural, memória coletiva e o orgulho de um povo que transforma tradição em espetáculo de cores, fé e beleza.

Ivan Barsand – Do canto coral a guardião da Cultura Popular Alagoana

  

Ivan Barsand de Leucas é um dos mais atuantes dirigentes culturais de Alagoas, atualmente exercendo seu segundo mandato como presidente da Associação dos Folguedos Populares de Alagoas (ASFOPAL), entidade referência na defesa, promoção e preservação das tradições populares do estado. Ele lidera a ASFOPAL com dedicação e visão estratégica, sempre voltado para fortalecer a identidade cultural e garantir o reconhecimento dos folguedos, danças, brincadeiras e saberes que representam o patrimônio imaterial alagoano. 

Com longa trajetória de engajamento na cultura, Barsand também foi Presidente da Federação Alagoana de Coros, onde contribuiu significativamente para a organização e desenvolvimento das práticas corais no estado durante muitos anos. Além disso, ele é dirigente do Coro Embracanto, grupo coral que valoriza repertórios ligados à música regional e à tradição popular — um papel que reforça sua profunda ligação com as expressões artísticas e comunitárias. 

Naturalmente um apaixonado pela música e pelo canto, Ivan começou sua trajetória cultural ainda jovem, integrando grupos corais e aprofundando sua relação com manifestações artísticas coletivas. Ao chegar em Alagoas, há mais de três décadas, ele aproximou-se dos mestres da cultura popular local e tornou-se amigo de personalidades fundamentais, como Ranilson França, referência no estudo e na promoção do folclore alagoano. 

À frente da ASFOPAL, Barsand tem guiado a associação em iniciativas importantes, como a produção e divulgação de guias de manifestações culturais, projetos de difusão nas escolas e a participação em festivais que aproximam as tradições populares do público jovem e da sociedade em geral. Ele acredita que a preservação cultural passa por educação, participação social e visibilidade, e por isso tem buscado parcerias com instituições públicas e privadas para ampliar o alcance das ações da entidade. 

Além de sua atuação institucional, Ivan conduz o programa “Balançando o Ganzá” — espaço tradicional de rádio voltado à cultura popular alagoana — que se tornou referência na difusão dos folguedos, ritmos e saberes tradicionais do estado, conectando gerações e fortalecendo a memória cultural. 

Reconhecido por sua persistência e amor às tradições, Ivan Barsand se destaca como um protagonista na luta pela valorização cultural, trabalhando para que as raízes populares de Alagoas sejam não apenas lembradas, mas vividas, compartilhadas e passadas adiante. Hoje, sua liderança representa o compromisso com a cultura viva, plural e inventiva do povo alagoano. 

Mestra Iraci do Guerreiro Alagoano



A cultura popular de Alagoas é feita de continuidade, resistência e herança familiar. Nesse cenário, destaca-se a trajetória da Mestra Iraci Bonfim, legítima representante do tradicional Guerreiro alagoano e herdeira de uma das mais importantes linhagens dessa manifestação: filha do Mestre Nivaldo Abdias e da Mestra Creuza Bonfim, referências do histórico Guerreiro Campeão do Trenado.

Desde cedo, Iraci cresceu entre ensaios, figurinos bordados, chapéus espelhados e a musicalidade vibrante do Guerreiro — manifestação típica do ciclo natalino nordestino que mistura teatro, dança, música e religiosidade popular. O Guerreiro é uma expressão genuinamente alagoana, marcada pelo brilho das indumentárias, pela riqueza simbólica de seus personagens e pelo diálogo entre tradição e criatividade.




Filha de dois mestres respeitados, Iraci não apenas herdou o conhecimento, mas assumiu a responsabilidade de manter viva a chama do Guerreiro Campeão do Trenado. Sua atuação como Mestra vai além da condução das apresentações: envolve preservação dos saberes tradicionais, organização do grupo e resistência diante das dificuldades enfrentadas pela cultura popular.

A trajetória de Iraci Bonfim simboliza a força das mulheres na cultura popular alagoana. Em um universo historicamente marcado por lideranças masculinas, ela reafirma o protagonismo feminino, conduzindo o Guerreiro com firmeza, sensibilidade e compromisso com a memória de seus pais e antepassados.

Manter um Guerreiro ativo em Alagoas é um ato de coragem cultural. Exige dedicação, articulação comunitária e, sobretudo, amor à tradição. Mestra Iraci representa essa continuidade — um elo entre passado, presente e futuro do Guerreiro alagoano.

Sua história é também a história da resistência da cultura popular de Alagoas: feita de família, de comunidade e de fé na força da tradição.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Mestra Zeza do Coco, de Alagoas

 


Mestra Zeza do Coco (Maria José da Silva), nascida em Cajueiro/AL em 1955, é reconhecida como Patrimônio Vivo de Alagoas (2015) por sua trajetória como cantora, compositora e dançarina de coco de roda.

Mestra Zeza do Coco é uma das grandes referências da cultura popular de Alagoas e um nome essencial na preservação e difusão do Coco de Roda, manifestação tradicional que reúne música, dança, canto e forte identidade comunitária. Reconhecida como mestra da cultura, Zeza construiu sua trajetória a partir do saber popular, transmitido oralmente e vivido no cotidiano das comunidades, mantendo viva uma das expressões mais ancestrais do povo alagoano.

Sua relação com o coco vem de longa data, marcada pela participação ativa em rodas, festejos populares e celebrações comunitárias. Com voz firme, presença marcante e profundo conhecimento rítmico, Mestra Zeza não apenas canta e dança o coco, mas ensina, orienta e inspira novas gerações, assumindo um papel fundamental como guardiã desse patrimônio imaterial. Seu trabalho vai além do palco: é um exercício constante de resistência cultural e afirmação da identidade afro-brasileira e nordestina.

Ao longo de sua caminhada, Mestra Zeza tornou-se símbolo de força feminina dentro da cultura popular, espaço historicamente marcado por desafios e invisibilizações. Sua atuação contribui para valorizar o protagonismo das mulheres nas tradições populares, mostrando que o coco também é território de liderança, sabedoria e ancestralidade feminina. Em cada apresentação, ela reafirma o caráter coletivo do coco, convidando o público a participar, bater palmas, dançar e sentir o ritmo pulsar.

Mestra Zeza do Coco é, portanto, mais do que uma artista popular: é patrimônio vivo de Alagoas. Sua história se confunde com a própria história do coco no estado, representando memória, resistência e continuidade cultural. Valorizar sua trajetória é reconhecer a importância dos mestres e mestras da cultura popular como pilares fundamentais da identidade cultural alagoana e brasileira. 

Josefina Novaes - guardiã da cultura popular alagoana

 


Josefina Novaes é uma das mais respeitadas pesquisadoras da cultura popular de Alagoas, reconhecida por sua dedicação contínua à preservação, valorização e difusão das manifestações tradicionais do estado. Seu trabalho se destaca pela seriedade da pesquisa, pelo compromisso com os mestres e mestras da cultura e pela defesa das expressões populares como patrimônio vivo, fundamental para a identidade do povo alagoano.

Com uma atuação marcada pelo diálogo direto com comunidades tradicionais, grupos folclóricos e fazedores de cultura, Josefina construiu uma trajetória pautada na escuta, no respeito aos saberes ancestrais e na compreensão da cultura popular como instrumento de resistência, memória e educação. Suas pesquisas abordam folguedos, danças, tradições orais, religiosidades e práticas culturais que atravessam gerações, muitas vezes invisibilizadas pelas políticas públicas ao longo da história.


Josefina Novaes também teve papel de destaque enquanto presidente da ASFOPAL – Associação dos Folguedos Populares de Alagoas, entidade fundamental na organização, representação e fortalecimento dos grupos da cultura popular no estado. Durante sua gestão, contribuiu para ampliar o reconhecimento institucional da cultura popular, fortalecer o protagonismo dos mestres e mestras e incentivar ações de salvaguarda, formação e articulação cultural.


Primeiro livro da Asfopal foi produzido 
e lançado por Josefina em 2005

Além de pesquisadora e gestora cultural, Josefina é uma voz ativa na defesa de políticas públicas inclusivas, que respeitem a diversidade cultural e garantam condições dignas de continuidade às tradições populares. Seu legado é reconhecido tanto no meio acadêmico quanto no chão das comunidades, onde seu trabalho se traduz em valorização, visibilidade e fortalecimento da cultura viva de Alagoas.

Josefina Novaes representa, assim, uma referência essencial para a história cultural alagoana, sendo símbolo de compromisso, sensibilidade e luta permanente pela preservação das tradições populares e pela afirmação da identidade cultural do estado.

Mestra Maura Góes - longevidade dedicada à cultura popular

 


Aos 83 anos, Mestra Maura Góes é um dos grandes nomes vivos da cultura popular de Alagoas. Mestra das Baianas Mensageiras de Santa Luzia, ela representa uma trajetória marcada pela resistência, pela fé e pela transmissão de saberes ancestrais que atravessam gerações.


Reconhecida como uma das mestras mais longevas e experientes do estado, Mestra Maura construiu sua história a partir da vivência comunitária, do compromisso com a tradição e da força feminina que sustenta e renova as manifestações populares. Sua atuação vai além da performance: ela é guardiã de cantos, gestos, indumentárias e rituais que compõem a identidade cultural das Baianas, expressão profundamente ligada à religiosidade, à memória afro-brasileira e ao cotidiano do povo alagoano.



Ao longo de décadas, Mestra Maura foi responsável por formar novas integrantes, orientar apresentações, preservar repertórios e manter viva uma manifestação que enfrenta, historicamente, o desafio da invisibilidade e da falta de reconhecimento institucional. Sua liderança é exercida com sabedoria, firmeza e afeto, características que fazem dela uma referência respeitada tanto dentro do grupo quanto no cenário mais amplo da cultura popular alagoana.



Gerações  - filhos, neta e a bisneta Laura fazem parte do grupo de Baianas, tocando ou dançando





Mestra Maura confecciona e costura colchas, toalhas, e produz riupinhas para bonecas 





No ano passado foi capa do Guia de Manifestações da Asfopal

Em um tempo em que a preservação da memória cultural se torna cada vez mais urgente, Mestra Maura Góes simboliza a importância das mestras e mestres da tradição oral. Sua trajetória é patrimônio vivo de Alagoas — uma história que canta, dança e resiste, mantendo acesa a chama da cultura popular para as gerações futuras.

Guerreiro - O folguedo de Alagoas

 

Falar do Guerreiro é falar da alma festiva e resistente de Alagoas. Entre tantos folguedos que compõem a riqueza cultural do Estado — como o Pastoril, o Coco de Roda, o Fandango e o Reisado — é o Guerreiro que se destaca como o mais característico e identitário do povo alagoano.

Por que o Guerreiro é o folguedo mais característico de Alagoas?

O Guerreiro nasceu em Alagoas a partir do encontro do Reisado com elementos dos Caboclinhos,  incorporando influências indígenas, africanas e europeias. Essa mistura deu origem a um espetáculo único, vibrante, marcado por:

Chapéus exuberantes e ricamente ornamentados com espelhos, fitas e lantejoulas;

Coreografias marcadas e evoluções coletivas;

Cânticos que narram batalhas simbólicas, histórias religiosas e episódios do cotidiano;

Personagens variados, que misturam o sagrado, o profano e o popular.


Nicole e sua avó Marlene, do Guerreiro São Pedro Alagoano 


Saudoso Mestre Lourenço, do Guerreiro São Pedro Alagoano 

Enquanto o Reisado é comum em vários estados do Nordeste, o Guerreiro ganhou identidade própria em Alagoas, tornando-se símbolo cultural reconhecido nacionalmente. Sua força é tamanha que, ao se falar em cultura popular alagoana, a imagem do chapéu espelhado do Guerreiro é uma das primeiras referências visuais.

Importância cultural e social

O Guerreiro vai muito além de um espetáculo. Ele representa:

Resistência cultural das camadas populares;

Transmissão de saberes tradicionais de geração em geração;

Afirmação da identidade alagoana;

Organização comunitária, já que os grupos funcionam como verdadeiras escolas culturais;

Impacto econômico, especialmente no ciclo natalino e em eventos culturais.

Em muitos bairros e comunidades de Maceió e do interior, o Guerreiro é instrumento de inclusão social, formação artística e fortalecimento da autoestima coletiva.


A luta de espadas. Aqui Luciene e Mestre Peitika, 
do Guerreiro São Pedro Alagoano 


Guerreiro Raio do Sol

Guerreiro Treme-Terra de Alagoas, de Mestre Peitika


Mestras Marilene, do Guerreiro Raio do Sol e Iraci Bonfim, do Guerreiro Campeão do Trenado


Guerreiro Treme-Terra de Alagoas e Guerreiro São Pedro Alagoano 

Principais personagens do Guerreiro

O folguedo é composto por uma rica galeria de personagens, cada um com função simbólica e teatral:

O Mestre – líder do grupo, responsável pelos cantos e pela condução da apresentação;

Contramestre – auxilia na organização e responde aos versos;

Rei e Rainha – representam a nobreza simbólica;

Mateu – personagem cômico, irreverente e provocador;

Palhaço – reforça o humor e a interação com o público;

Índia e Caboclos – representam a ancestralidade indígena;

Soldados e Guerreiros – dão nome ao folguedo, simbolizando batalhas e resistência;

Estrela e figuras místicas – elementos herdados das tradições natalinas.

Essa diversidade faz do Guerreiro um verdadeiro teatro popular a céu aberto.

Cada mestre e mestra representa uma linhagem de conhecimento, mantendo viva a tradição através do ensino oral, dos ensaios comunitários e das apresentações públicas.


Luciene, do Guerreiro São Pedro Alagoano 



Guerreiro Campeão do Trenado - Salete Bonfim


Guerreiro Raio do Sol




Mestre Peitika

O Guerreiro como símbolo identitário

O Guerreiro é mais que folguedo: é espetáculo, é ritual, é memória viva. Ele sintetiza o espírito criativo do povo alagoano — festivo, resistente e profundamente ligado às suas raízes.

Se Alagoas pudesse ser representada por uma imagem cultural, certamente seria o brilho dos espelhos do chapéu do Guerreiro refletindo o sol do Nordeste, mostrando que tradição e identidade caminham juntas.

O Guerreiro é resultado de um processo de formação cultural profundamente híbrido. Embora tenha forte base no Reisado e no Pastoril, sua identidade visual, coreográfica e simbólica também carrega marcante influência dos Caboclinhos, folguedo de matriz indígena presente em várias regiões do Nordeste.

A influência dos Caboclinhos na formação do Guerreiro

Os Caboclinhos representam, tradicionalmente, encenações de batalhas simbólicas entre povos indígenas, com forte presença de:

Cocares e indumentárias com penas e elementos naturais;

Arcos, flechas e lanças;

Evoluções coreográficas em filas e semicírculos;

Marcação rítmica intensa;


Mestra Marlene - Guerreiro São Pedro Alagoano 



Referências à ancestralidade indígena.

No Guerreiro alagoano, essa influência aparece especialmente:

Nos personagens indígenas e caboclos incorporados ao enredo;

No espírito guerreiro das apresentações;

Na estrutura de enfrentamento simbólico entre grupos;

No colorido vibrante e na estética marcial;

Na musicalidade cadenciada que lembra as marcações coreográficas indígenas.

O próprio nome “Guerreiro” reforça essa herança simbólica. Diferente do Reisado tradicional, mais centrado na narrativa natalina, o Guerreiro assume uma postura mais performática e combativa, aproximando-se da teatralidade e da força simbólica dos Caboclinhos.

Essa fusão — Reisado e Caboclinhos — consolidou um folguedo singularmente alagoano, com identidade própria e reconhecível.

O reconhecimento como Patrimônio Imaterial de Alagoas

Pela sua relevância histórica, social e cultural, o Guerreiro foi declarado Patrimônio Cultural Imaterial do Estado de Alagoas por meio da Lei Estadual nº 7.669, de 2014.

Esse reconhecimento oficial representou:

A valorização institucional do folguedo;

A garantia de políticas públicas de preservação;

O fortalecimento da identidade cultural alagoana;

O reconhecimento do trabalho de mestres e mestras guardiões da tradição.

A declaração como Patrimônio Imaterial não foi apenas um ato simbólico — foi resultado de décadas de resistência cultural dos grupos e da mobilização de pesquisadores, produtores e lideranças da cultura popular.

Vários mestres e mestras foram fundamentais para manter viva essa expressão cultural, transmitindo saberes oralmente e formando novas gerações de brincantes, como Mestra Joana Gajuru, Mestre Venâncio, Mestre Benon, Mestre Djalma, Verdelinho, Juvenal Leonardo, Juvenal Domingos, Mestre Lourenço, Anadeje, Maria Flor, Mestre Nivaldo Abdias, Mestra Vitória, Mestre Pedro Lavandeira, dentre tantos outros.


Símbolo maior da identidade alagoana

O Guerreiro se tornou o folguedo mais característico de Alagoas justamente por essa capacidade de síntese cultural. Ele reúne:

Tradição religiosa (Reisado),

Dramaticidade coreográfica (Pastoril),

Força indígena (Caboclinhos),

Criatividade popular urbana.

É espetáculo, é ritual, é resistência e é afirmação identitária.

Reconhecer oficialmente o Guerreiro é também reconhecer que a cultura popular não é folclore congelado — é patrimônio vivo, pulsante e estruturante da economia criativa e da autoestima do povo alagoano.