
Falar do Guerreiro é falar da alma festiva e resistente de Alagoas. Entre tantos folguedos que compõem a riqueza cultural do Estado — como o Pastoril, o Coco de Roda, o Fandango e o Reisado — é o Guerreiro que se destaca como o mais característico e identitário do povo alagoano.
Por que o Guerreiro é o folguedo mais característico de Alagoas?
O Guerreiro nasceu em Alagoas a partir do encontro do Reisado com elementos dos Caboclinhos, incorporando influências indígenas, africanas e europeias. Essa mistura deu origem a um espetáculo único, vibrante, marcado por:
Chapéus exuberantes e ricamente ornamentados com espelhos, fitas e lantejoulas;
Coreografias marcadas e evoluções coletivas;
Cânticos que narram batalhas simbólicas, histórias religiosas e episódios do cotidiano;
Personagens variados, que misturam o sagrado, o profano e o popular.
Nicole e sua avó Marlene, do Guerreiro São Pedro Alagoano
Saudoso Mestre Lourenço, do Guerreiro São Pedro Alagoano
Enquanto o Reisado é comum em vários estados do Nordeste, o Guerreiro ganhou identidade própria em Alagoas, tornando-se símbolo cultural reconhecido nacionalmente. Sua força é tamanha que, ao se falar em cultura popular alagoana, a imagem do chapéu espelhado do Guerreiro é uma das primeiras referências visuais.
Importância cultural e social
O Guerreiro vai muito além de um espetáculo. Ele representa:
Resistência cultural das camadas populares;
Transmissão de saberes tradicionais de geração em geração;
Afirmação da identidade alagoana;
Organização comunitária, já que os grupos funcionam como verdadeiras escolas culturais;
Impacto econômico, especialmente no ciclo natalino e em eventos culturais.
Em muitos bairros e comunidades de Maceió e do interior, o Guerreiro é instrumento de inclusão social, formação artística e fortalecimento da autoestima coletiva.
A luta de espadas. Aqui Luciene e Mestre Peitika,
do Guerreiro São Pedro Alagoano
Guerreiro Raio do Sol
Guerreiro Treme-Terra de Alagoas, de Mestre Peitika
Mestras Marilene, do Guerreiro Raio do Sol e Iraci Bonfim, do Guerreiro Campeão do Trenado
Guerreiro Treme-Terra de Alagoas e Guerreiro São Pedro Alagoano
Principais personagens do Guerreiro
O folguedo é composto por uma rica galeria de personagens, cada um com função simbólica e teatral:
O Mestre – líder do grupo, responsável pelos cantos e pela condução da apresentação;
Contramestre – auxilia na organização e responde aos versos;
Rei e Rainha – representam a nobreza simbólica;
Mateu – personagem cômico, irreverente e provocador;
Palhaço – reforça o humor e a interação com o público;
Índia e Caboclos – representam a ancestralidade indígena;
Soldados e Guerreiros – dão nome ao folguedo, simbolizando batalhas e resistência;
Estrela e figuras místicas – elementos herdados das tradições natalinas.
Essa diversidade faz do Guerreiro um verdadeiro teatro popular a céu aberto.
Cada mestre e mestra representa uma linhagem de conhecimento, mantendo viva a tradição através do ensino oral, dos ensaios comunitários e das apresentações públicas.
Luciene, do Guerreiro São Pedro Alagoano
Guerreiro Campeão do Trenado - Salete Bonfim
Guerreiro Raio do Sol
Mestre Peitika
O Guerreiro como símbolo identitário
O Guerreiro é mais que folguedo: é espetáculo, é ritual, é memória viva. Ele sintetiza o espírito criativo do povo alagoano — festivo, resistente e profundamente ligado às suas raízes.
Se Alagoas pudesse ser representada por uma imagem cultural, certamente seria o brilho dos espelhos do chapéu do Guerreiro refletindo o sol do Nordeste, mostrando que tradição e identidade caminham juntas.
O Guerreiro é resultado de um processo de formação cultural profundamente híbrido. Embora tenha forte base no Reisado e no Pastoril, sua identidade visual, coreográfica e simbólica também carrega marcante influência dos Caboclinhos, folguedo de matriz indígena presente em várias regiões do Nordeste.
A influência dos Caboclinhos na formação do Guerreiro
Os Caboclinhos representam, tradicionalmente, encenações de batalhas simbólicas entre povos indígenas, com forte presença de:
Cocares e indumentárias com penas e elementos naturais;
Arcos, flechas e lanças;
Evoluções coreográficas em filas e semicírculos;
Marcação rítmica intensa;
Mestra Marlene - Guerreiro São Pedro Alagoano
Referências à ancestralidade indígena.
No Guerreiro alagoano, essa influência aparece especialmente:
Nos personagens indígenas e caboclos incorporados ao enredo;
No espírito guerreiro das apresentações;
Na estrutura de enfrentamento simbólico entre grupos;
No colorido vibrante e na estética marcial;
Na musicalidade cadenciada que lembra as marcações coreográficas indígenas.
O próprio nome “Guerreiro” reforça essa herança simbólica. Diferente do Reisado tradicional, mais centrado na narrativa natalina, o Guerreiro assume uma postura mais performática e combativa, aproximando-se da teatralidade e da força simbólica dos Caboclinhos.
Essa fusão — Reisado e Caboclinhos — consolidou um folguedo singularmente alagoano, com identidade própria e reconhecível.
O reconhecimento como Patrimônio Imaterial de Alagoas
Pela sua relevância histórica, social e cultural, o Guerreiro foi declarado Patrimônio Cultural Imaterial do Estado de Alagoas por meio da Lei Estadual nº 7.669, de 2014.
Esse reconhecimento oficial representou:
A valorização institucional do folguedo;
A garantia de políticas públicas de preservação;
O fortalecimento da identidade cultural alagoana;
O reconhecimento do trabalho de mestres e mestras guardiões da tradição.
A declaração como Patrimônio Imaterial não foi apenas um ato simbólico — foi resultado de décadas de resistência cultural dos grupos e da mobilização de pesquisadores, produtores e lideranças da cultura popular.
Vários mestres e mestras foram fundamentais para manter viva essa expressão cultural, transmitindo saberes oralmente e formando novas gerações de brincantes, como Mestra Joana Gajuru, Mestre Venâncio, Mestre Benon, Mestre Djalma, Verdelinho, Juvenal Leonardo, Juvenal Domingos, Mestre Lourenço, Anadeje, Maria Flor, Mestre Nivaldo Abdias, Mestra Vitória, Mestre Pedro Lavandeira, dentre tantos outros.
Símbolo maior da identidade alagoana
O Guerreiro se tornou o folguedo mais característico de Alagoas justamente por essa capacidade de síntese cultural. Ele reúne:
Tradição religiosa (Reisado),
Dramaticidade coreográfica (Pastoril),
Força indígena (Caboclinhos),
Criatividade popular urbana.
É espetáculo, é ritual, é resistência e é afirmação identitária.
Reconhecer oficialmente o Guerreiro é também reconhecer que a cultura popular não é folclore congelado — é patrimônio vivo, pulsante e estruturante da economia criativa e da autoestima do povo alagoano.